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sábado, 1 de janeiro de 2011

Portugueses venderam 200 milhões em ouro em 3 anos


Desde que Salazar amealhou várias toneladas de ouro para o património nacional que não se recolhia tanto metal como aconteceu nos últimos mil dias em Portugal. Só que, em vez de ir para os cofres do Banco de Portugal, os portugueses desfazem-se de todo o seu ouro para sobreviver à crise, por medo de assaltos e por ter atingido um alto valor. A sangria dourada verifica-se desde 2008 e a Alemanha é o destino das barras em que as jóias de ouro dos portugueses estão a ser fundidas

A crise, o medo de ser assaltado e uma extrema valorização são as principais razões que, desde 2008, têm levado os portugueses a desfazer-se vertiginosamente da maior parte dos objectos de ouro quem têm em sua posse.

A febre de venda de ouro que atingiu os portugueses subiu a um grau tão alto que Albino Moutinho, o proprietário da fundição que em Gondomar transforma as jóias, libras e outras moedas e todo o tipo de objectos deste metal em lingotes de ouro para vender à Alemanha, acredita que em dois anos os portugueses esgotarão este tipo de bens que lhes têm vindo a assegurar um complemento aos salários e a pagar crédito malparado.

Se a crise é sentida por quase todos os portugueses e a estatística dos assaltos a particulares é na ordem das dezenas por semana, então é na valorização extrema do ouro que quem quer investir ou transformá-lo em dinheiro se refugia. Afinal, o grama deste metal é o mais seguro dos investimentos, visto que em 1999 valia 6,19 euros (ao câmbio actual) enquanto ontem a cotação era de 32,52 euros.

Se os motivos referidos já seriam por si só suficientes para aliciar os portugueses a vender um tipo de bem valioso, amealhado por várias gerações na família, a forma fácil como se processa a sua actual venda acabou com os pruridos a quem ainda os tinha. A vontade de realizar dinheiro é facilitada - pode até dizer-se quase forçada - por uma rede de centenas de lojas espalhadas pelo País que, munida de uma forte campanha publicitária, seduz até os mais desconfiados com este modo de realizar dinheiro, pois o pagamento da transacção é realizado em segredo e de imediato.

Feitas as contas, desde 2008 que Portugal passou de importador a exportador de ouro num negócio livre de impostos e sem barreiras entre os Estados europeus. Um mercado tão interessado no nosso ouro - cujo grau de pureza é maior do que o dos restantes países europeus - que não tem receio em expor nas montras o produto de assaltos realizados a ourivesarias nacionais, como acontece na Roménia, onde nem retiram as etiquetas das lojas portuguesas.

O valor da verba para o ouro que os portugueses já venderam oficialmente nestes últimos mil dias rondará os 200 milhões de euros. Desfazem-se de alianças, fios, medalhas e todo o tipo de objectos de ouro que possuem e em menos de 20 minutos saem das novas lojas que compram ouro no momento com dinheiro vivo na carteira. O passo seguinte - também oficial - é a fundição desse ouro usado e a sua transformação em lingotes que pesam entre cem gramas e até um quilo e que são vendidos a uma empresa alemã. A mesma que até há três anos era fornecedora dos ourives portugueses.

A tentação é tão grande que até as famílias ciganas também já aderiram à venda das tradicionais jóias de ouro que ostentavam em casamentos e outras comemorações. Das ciganas, vão-se os fios de ouro, alguns com o peso de um quilo; dos ciganos, vão-se as braceletes com 15 cm de comprimento e com a largura dos pulsos; deles e delas, vão-se as cruzes, os cordões, os anéis e todo o tipo de adornos que até há pouco tempo nunca chegavam a ser comercializados no mercado oficial.

Não é por acaso que o dono de uma fundição localizada em Gondomar - a capital portuguesa da ourivesaria - testemunhou ao DN a sua estranheza por ver chegar diariamente nos últimos dois anos ao seu forno dezenas de jóias ciganas, que até lhe dão pena destruir: "Algumas não serão de muito bom gosto, mas a quantidade de ouro com que foram feitas e as horas que os ourives terão demorado na sua confecção até me faz dó mandá-las derreter."

Também diariamente chegam às fundições de ouro da região de Gondomar, para serem transformados em lingotes, centenas de fios tradicionais que as minhotas exibiam nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, e em muitas outras celebrações populares do Norte de Portugal. Neste caso, tal como com muito do ouro de que os ciganos se desfazem, fundem-se artigos que levaram muitos dias de trabalho, ao longo de muitas décadas e séculos, aos artífices especializados nesta arte tão portuguesa como é a filigrana.

Aliás, se é de lamentar que o património da arte da filigrana, por exemplo, seja vítima desta combinação do desfazer de bens através da sua fundição, o futuro que está reservado aos ourives e artesãos que a praticavam ainda é menos dourado, porque cada vez mais se observa nos estabelecimentos de ourivesaria artigos que imitam os nacionais, só que feitos na vizinha Itália ou na exótica Tailândia. Em vez do entrançar da filigrana, já há réplicas produzidas pelo método de injecção, de tão grande qualidade que as imitações importadas são até dificilmente detectáveis pelos profissionais do ramo.

A razão para esta espécie de contrafacção se tornar cada vez mais presente nas vitrinas nacionais passa pelo receio que os vendedores têm de ser assaltados enquanto percorrem as joalharias de Portugal com malas repletas de jóias. O mesmo medo perpassa pelos proprietários das ourivesarias que estão inseguros devido à média de um assalto por semana, receio que há pouco tempo ainda preocupava mais os que tinham estabelecimentos de rua até ao momento em que lojas no interior dos centros comerciais também passaram a ser vítimas.

Em Braga, cidade onde o comércio do ouro é muito elevado, as queixas também são muitas. É o caso da Ourivesaria Araújo, onde o dono recuperou há poucos dias parte do produto de um assalto avaliado em 200 mil euros, efectuado há seis meses, por confissão no tribunal dos três autores. Segundo Manuel Araújo, este foi um final feliz, porque não é o habitual: "Estava num andar deste prédio, escondido num autoclismo." Manuel Araújo dá outros exemplos, como é o caso de nos assaltos até serem roubadas medalhas esmaltadas sem valor. Entende-se que a resposta policial é insuficiente e que a investigação desemboca na maior parte dos casos num beco sem saída.

Também Mário Dias, com uma ourivesaria a poucas centenas de metros, reclama da insegurança. No seu caso, a recusa em aceitar a situação de assaltos frequentes vai mais longe e está a tentar reunir a classe para tomar medidas no sentido de dificultar a vida aos ladrões com os meios legais à sua disposição. De uma coisa, no entanto, tem a certeza: "Os meus filhos já não vão seguir esta profissão, porque ela não tem futuro."

A insegurança que os ourives tradicionais vivem nos últimos anos tem crescido paralelamente à alta do ouro. A frase que mais se ouve entre os proprietários de ourivesarias, que só aceitaram falar sob anonimato, é que "o roubo só existe quando alguém compra o produto". Neste terreno, as acusações divergem quanto à autoria dos assaltos, apesar de, na sua opinião, o denominador comum é serem os gangues do Leste os responsáveis pela maioria dos assaltos. Não é por acaso que, dizem [dois proprietários], "as montras das ourivesarias da Roménia estão cheias de artigos portugueses".

As acusações dos mesmos ourives tradicionais, por outro lado, convergem na afirmação de que a proliferação de lojas não especializadas se transformam numa forma de facilitar a venda do produto da onda de assaltos, porque a vigilância das autoridades é inexistente.

Na realidade, o ouro que até há pouco tempo era vendido aos ourives - que na maioria das vezes convenciam o cliente a trocar por uma jóia nova - vai agora para as centenas de lojas que compram ouro e pagam imediatamente. Esta acusação que pende sobre os cerca de 200 novos estabelecimentos que abriram as portas de norte a sul nos últimos anos nunca foi assumida ao DN com declarações dos próprios que pudessem ser publicadas. Cinco donos de lojas ouvidos apontaram o dedo, de novo sob o anonimato, ao recente comércio de compra de ouro, do qual dizem não ser suficientemente fiscalizado nem policiado.

Existem várias redes de lojas, mas o destaque vai para a Valores, um franchising idealizado para aproveitar a miragem do lucro alto que o ouro proporciona e que em pouco mais de dois anos de existência passou de cinco lojas, em Novembro de 2008, para 135 até à semana passada. Deste número, 15 são próprias, enquanto 120 pertencem a empresários que encontraram no ramo uma resposta ao desemprego e ao investimento. O negócio é bom para as duas partes, estando o empresário pronto para abrir a porta da loja após uma formação duma semana e com a retaguarda protegida pela proprietário do franchising, que garante o escoamento de toda a mercadoria comprada aos balcões das lojas.

Quando questionado sobre a referida falta de fiscalização, André Pinto, administrador da Valores, refere que várias lojas da cadeia também têm sido assaltadas e recusou qualquer ilegalidade nos espaços franchisados: "Nas nossas lojas não conseguem meter [o produto de roubos], porque todas as compras são declaradas à Polícia Judiciária a cada oito dias, para além de exigirmos o bilhete de identidade a quem vende." Este responsável não duvida de que há "um preconceito que todos os dias combatemos" para com as lojas da rede, porque este "era um negócio fechado e criámos uma oportunidade empresarial". Remata: "O ouro está em alta há dez anos, por isso pegámos num negócio fechado a uma classe e abrimo-lo a outros que estão a beneficiar de uma oportunidade empresarial."

Apesar de o horizonte desta febre do ouro estar no seu pico mais alto e a perspectiva do negócio ser, dizem os entendidos, hiperlucrativo apenas por mais dois anos, os empresários que aderem à Valores são suficientes para garantir a expansão da rede em mais algumas dezenas de lojas ainda nos próximos meses. E, como a diversificação dos mercados é a máxima do sistema capitalista, já abriram cinco lojas na apetecível Galiza e prepara-se a criação do mesmo franchising no México e na França. Redes que abrirão em breve, obedecendo ao mesmo perfil que funcionou em Portugal.

A existência destas redes de lojas privilegiam o atendimento pessoal, rápido e com absoluta discrição. O perfil do cliente-tipo é a mulher de meia-idade que quer desfazer-se do ouro que tem em casa porque receia um assalto e acredita que o preço não vai subir mais do que aquele que já se alcançou. É um bom negócio para as duas partes, porque a pessoa desfaz-se do ouro que já não usa - na maioria das vezes, os objectos estão fora de moda ou estragados - e as lojas arrebanham todo o tipo de produtos para fundir e transformar em lingotes. Entre tanto cascalho (expressão que designa entre os profissionais os objectos avulsos), há sempre peças que são de boa qualidade e que farão parte de lotes que compensam os de menor qualidade.

Quem não aprecia esta oportunidade de negócio que surgiu em 2008 são os ourives. Habituados a ser os destinatários do cascalho, viram de um momento para o outro perder esse filão que lhes entrava a muito bom preço pela porta e não acharam resposta para a concorrência até agora que não o do habitual lamento do comércio tradicional. Mesmo pagando muito mais que estas lojas, a oferta deslocou-se veloz e ferozmente para os estabelecimentos onde a discrição impera e as notas de euros são logo postas sobre a mesa.

A diferença do que é pago pelo mesmo objecto de ouro pode atingir grandes disparidades de loja para loja e destas para as ourivesarias. Os clientes já o entenderam e antes de efectuarem a transacção visitam dois ou três franchises para ver qual deles paga melhor e escolhem o que mais os beneficiam, obrigando a uma normalização do preço cada vez maior entre estes estabelecimentos. Quanto às ourivesarias, onde o objecto seria sempre mais bem pago, o cliente acaba por as deixar de lado para evitar ser reconhecido por outros clientes e empregados e, também, pelo menor empenho em tratar do assunto com rapidez e discrição.

Passar despercebido durante a transacção é um dos segredos do actual negócio do ouro. Nas lojas franchisadas, a porta para a rua está sempre fechada, a montra é translúcida e não deixa ver o interior, não há mais do que um cliente em simultâneo e, feita a transacção, volta-se à rua e está-se de novo misturado entre a população.

O DN tentou falar com várias pessoas que entraram nessas lojas para saber das razões que as levavam a desfazer-se dos bens e o resultado da tentativa foi sempre desastroso. Num dos contactos, numa destas lojas em Braga, a experiência foi quase violenta face à resposta física que um casal deu.

Se os portugueses querem discrição, a pouco mais de cem quilómetros desta cidade, a reacção por parte dos clientes espanhóis é bem diferente. Em Vigo, na joalharia Zafiro, as perguntas são feitas às claras e as respostas dadas sem equívocos. Enquanto se pergunta à proprietária informações sobre o negócio do ouro, ela fez avaliações a dois clientes e o marido informou a cotação do dia a um homem que entrou no estabelecimento e, sem vergonha, o inquiriu. Aqui, o cascalho também tem uma alcunha - chatarra - e segue o mesmo caminho que em Portugal devido aos mesmos receios: assaltos, fora de moda e medo de perder a oportunidade de um alto lucro.

Flor, que está há 25 anos à frente da Zafiro, refere que o ouro português é mais puro que o espanhol e que por isso o cliente não atravessa a fronteira nem para comprar ou vender, apesar de duas placas bem visíveis na montra avisarem que "Se compra oro". Do outro lado da Rua do Príncipe (antiga Calle del Príncipe), a tradicional Joyería Resende não compra ouro mas confirma que tem conhecimento das regras de oferta e da procura deste mercado porque os preços são atractivos. Confirma que nenhum português entrou na loja com intenção de vender ouro mas no que respeita a espanhóis são muitos, e diz: "Precisam de liquidez e aproveitam a ocasião."

Como a Joyería Resende não negoceia ouro, não irá sentir a concorrência que dentro de semanas afectará, decerto, a Zafiro. É que a invasão da Galiza pelas lojas da Valores está em marcha e, para além do balcão que já abriram em Vigo, a 800 metros destes dois estabelecimentos, há em Pontevedra duas lojas em pleno funcionamento. A negociação de novos franchises está de vento em popa e em 2011 serão dezenas as novas lojas, com o mesmo design das que abriram em Portugal, sempre de cor verde e com um boneco feito de uma barra de ouro como logótipo, a abrir portas em todo o país vizinho.

Um movimento que não é acompanhado pelas ourivesarias tradicionais nem pelos fabricantes de ourivesaria nacional. Em Gondomar, a apelidada capital da ourivesaria, e onde o autarca Valentim Loureiro mandou erigir uma estátua à classe, a situação dos seus profissionais mostra bem como o fim desta actividade se aproxima. Quem procurar as oficinas onde se criam obras de arte nacionais dificilmente as encontrará, porque a renovação de instalações e a actualização de novos modelos de negócios são inexistentes. Nalgumas oficinas, a própria mesa de trabalho do ouro serve de mesa para as refeições.

Outro exemplo: numa empresa de Gondomar que vende equipamento para esta actividade, estão em exposição várias máquinas. Segundo o responsável, o que os artesãos compram são as máquinas de 18 euros, que os apaixonados da bricolage utilizam, em vez de aparelhos importados da Coreia, que custam 200 a 300 euros, mas são os exigidos pela arte da ourivesaria. A desactualização é tão grande que quando se quis saber a morada de uma fundição de ouro o lojista consultou o catálogo da Associação de Industriais da Ourivesaria e Relojoaria do Norte e forneceu um endereço que já não existe há cinco anos.

Alheio a tudo isto está Augusto Ferreira, que há 37 anos vende castanhas na Rua de Santa Catarina, onde o negócio do ouro é grande. Afinal, a cotação da dúzia de castanhas não sobe dos dois euros!

fonte: DN

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