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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Crise leva portugueses ao psiquiatra


Mesmo que a afluência às consultas públicas de psiquiatria tenha vindo a aumentar, alguns médicos ainda continuam a defender que não se pode determinar uma relação direta entre este aumento e a crise em si. Maria Luísa Figueira, diretora do serviço de psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, é uma delas, dizendo que “as pessoas andam mais apreensivas, mas para termos a certeza é preciso esperar algum tempo”. “Não sei se é por causa da crise, porque na mudança de estação há mais depressões, suicídios e para-suicídios, mas nas entrevistas as pessoas queixam-se da situação económica”, revelou a psiquiatra Paula Carriço, notando uma maior quantidade de pessoas nas urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).

Entre as queixas mais frequentes nestas consultas, entre os adultos com mais de 50 anos, surge o medo da falência da empresa onde trabalham e a insegurança de trabalharem por conta própria; já entre os jovens, com perturbações de ansiedade, pessimistas e sem esperança, o desemprego aparece como o seu maior receio.

Aumento esperado

Carlos Braz Saraiva, chefe do serviço dos HUC, tem verificado, no decorrer das consultas, os efeitos negativos da crise na saúde mental dos portugueses, explicando que “nas sociedades ocidentais, adquirimos um determinado padrão de vida e, com a crise, as pessoas sentem insegurança”. O mesmo refere ainda que muitas pessoas chegam às consultas com “perturbações do sono”, porque estas “são socialmente aceites”. “Têm insónias, mas é apenas a ponta do icebergue, o que se vê. No decorrer da entrevista, vemos que o que está abaixo da linha é muito maior e importante”, sublinha.

Já Pires Preto, diretor clínico do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra, encara como sendo de esperar o aumento das consultas com a crise, porque esta “vai provocar ansiedade, depressão, mas no campo da psiquiatria não se reflete de imediato. Para além de ter um período de incubação longo, há um certo estigma, as pessoas não procuram logo ajuda”. Também Luísa Sales, que trabalha no Hospital Militar de Coimbra e no setor privado, tem notado um acréscimo das primeiras consultas, mas uma quebra na continuidade. “Há um abandono dos acompanhamentos psicoterapêuticos por falta de dinheiro. A portaria que diminuía o preço dos medicamentos para doentes de evolução prolongada foi extinta e as deslocações para ir à consulta também pesam…”, alerta, defendendo que, com a crise, “as pessoas tornam-se muito mais vulneráveis ao sofrimento psíquico”. A mesma refere ainda que há quem não queira meter baixa por “medo de represálias” no emprego.


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