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terça-feira, 8 de março de 2011

Telegrama revela suspeito da Al-Qaeda em Portugal


Os Estados Unidos andaram a investigar um cidadão português de origem árabe e as relações dele com o alegado líder de uma célula da Al-Qaeda na Europa.

Um empresário sírio que vive em Portugal e tem nacionalidade portuguesa estava a ser investigado pelas autoridades americanas em 2008 pelo facto de manter contacto regular com o líder de uma célula da Al-Qaeda na Europa, Ibrahim Buisir, classificado abertamente como um "colaborador próximo" de Bin Laden pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O nome, o número de passaporte, a data e o local de nascimento do cidadão português de origem síria estão expostos num telegrama confidencial (vedado a estrangeiros, com a classificação NOFORN), enviado para Washington a 14 de novembro de 2008 pelo então embaixador americano em Lisboa, Thomas Stephenson.

De acordo com o telegrama, o indivíduo em causa tinha sido incluído dois anos antes, a 27 de novembro de 2006, na lista secreta de suspeitos de terrorismo do Governo dos Estados Unidos (TSC ou Terrorist Screening Center watch list), criada em 2003 por determinação do então presidente George W. Bush para reunir numa única base de dados os ficheiros de pessoas "sobre as quais recaem suspeitas razoáveis de estarem envolvidas na preparação ou no apoio a atividades terroristas".

A referência ao suspeito no documento assinado pelo embaixador serviu para dar conta ao FBI, à CIA, ao Centro Nacional de Contraterrorismo e a outras agências governamentais em Washington de que "o departamento de assuntos regionais da embaixada forneceu informações sobre (nome omitido pelo Expresso), declarando que ele tem estado em contacto permanente com Ibrahim Buisir".

Numa breve nota, Thomas Stephenson recorda que "Buisir foi considerado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos como estando ligado às atividades de financiamento da Al-Qaeda. De acordo com informações do Governo norte-americano, Buisir dirigiu uma célula europeia da Al-Qaeda que dá apoio a operações ao providenciar viagens e condições de alojamento na Europa".

Neste momento, e segundo várias fontes cruzadas que o Expresso contactou ao longo da semana junto das autoridades portuguesas, o empresário sírio não é considerado perigoso e não constitui uma ameaça para a segurança nacional. Oficialmente, a Polícia Judiciária limitou-se a confirmar que a sua Unidade Nacional de Contraterrorismo "está a acompanhar a situação" mas não tem nenhuma investigação em curso que possa ficar comprometida pela divulgação do telegrama, depois de informada previamente pelo Expresso de que não iríamos expor nem a identidade nem a localização exata do indivíduo.

É aqui que começam as dúvidas. Uma das questões que o telegrama levanta é sobre onde, como e quem vigiou (ou ainda vigia) os movimentos do empresário sírio. O facto de o suspeito se encontrar em Portugal e Buisir se encontrar na Irlanda, onde vivia na altura e ainda vive (ver caixa), significa que a informação de que mantinham "contacto permanente" resultou de escutas ou da interceção da correspondência eletrónica entre os dois.

Por outro lado, Stephenson afirma que a informação foi providenciada pelos serviços da Embaixada de Lisboa. Ao mesmo tempo, em relação a outro assunto também abordado no documento, a um parágrafo de distância, em que reproduz os dados biográficos de todos os 13 neonazis condenados no processo da organização extremista Hammerskin Nation, o embaixador assume que isso lhe foi transmitido pela Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ. Por que razão, no mesmo telegrama, iria citar as autoridades portuguesas num caso e não no outro?

Escutas aqui ou na Irlanda?

O Expresso sabe que não houve escutas ao empresário sírio por parte da PJ, a única entidade que as pode fazer legalmente em Portugal. Duas hipóteses ficam em aberto: ou foram feitas interceções telefónicas na Irlanda que tinham Buisir como alvo, apanhando o suspeito sírio na rede, e a informação foi passada à embaixada em Portugal através de um canal de comunicação mais restrito entre a estação da CIA em Dublin e a estação da CIA em Lisboa (tendo esta passado, por sua vez, a informação aos serviços da embaixada). Ou, em alternativa, houve escutas feitas em território português. Ilegais.

Num encontro com o Expresso, em que foi avisado de que iria ser publicado um artigo sobre ele nesta edição do jornal, o empresário sírio revelou que o seu número de telemóvel se mantém inalterado desde que veio viver para Portugal, há oito anos, e que há muito que desconfia estar sob escuta. "Ouço muitas vezes barulhos estranhos e o eco da minha voz".

O imigrante adiantou que foi abordado há cerca de três anos, na cidade onde mora, por um indivíduo que lhe fez uma série de perguntas relacionadas com terrorismo e com um cidadão de origem árabe na Irlanda.

Questionado sobre se esse indivíduo se identificou e se era de nacionalidade portuguesa, disse não se lembrar, admitindo que falaram em inglês (por ser uma língua em que é mais fluente) e acrescentando depois que "há coisas de que não vale a pena falar. Recordo-me só que, no final, o indivíduo zangou-se comigo e atirou um copo cheio de sumo para cima do meu carro. Eu agradeci-lhe e limpei o carro. Não tenho problemas em que me vigiem ou me ponham sob escuta. Não cometi nenhum erro e não tenho nada a temer".

Negando conhecer alguém chamado Ibrahim Buisir ("só tive uma vez um cliente na Irlanda e tinha outro nome"), o empresário explicou que nos negócios internacionais em que está envolvido, e que o obrigam a viajar regularmente pela Europa e pelo Médio Oriente, conserva uma carteira de clientes conhecidos. "Não me dou com gente estranha".

Antes de vir para Portugal, o suspeito viveu cinco anos na Arábia Saudita, onde trabalhou para uma empresa americana, e teve uma passagem pela Alemanha.

O telegrama em que aparece mencionado tem o título "Embassy Lisbon's October 2008 VISAS VIPER report" (relatório VISAS VIPER de outubro de 2008 da embaixada de Lisboa). Trata-se de um relatório de rotina sobre terrorismo destinado a prevenir a entrada de suspeitos em território americano.

O programa VISAS VIPER surgiu depois do primeiro atentado às torres gémeas de Nova Iorque em 1993. Serve, essencialmente, para fazer circular informação sucinta sobre indivíduos sob suspeita entre todos os serviços americanos no estrangeiro e o Departamento de Segurança Interna em Washington.

O empresário sírio nunca tentou entrar nos Estados Unidos. "Mas penso um dia ir ao Havai de férias com a minha mãe". Um sonho difícil. No telegrama vem que ele tem um "00 hit" no Consular Lookout and Support System (CLASS). Se conseguir eventualmente aterrar num aeroporto americano, o "00 hit" implica ser levado para uma sala. E esperar pelos agentes do FBI.

fonte: Expresso

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