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domingo, 29 de dezembro de 2019

Vamos ter as doenças que os políticos quiserem


Sobrinho Simões e Elsa Lagartinho falam sobre as doenças do futuro © Leonel de Castro/ Global Imagens

Sobrinho Simões, médico, 71 anos, investigador na área do cancro, e Elsa Logarinho, 46 anos, especialista em genética e líder da equipa que descobriu o gene da juventude, falam sobre as doenças e a sociedade que aí vem.

Uma hora e dois minutos. Foi quanto bastou para que Sobrinho Simões e Elsa Logarinho lançassem algumas questões sobre o futuro. Poderiam ter sido duas, quatro, quantas pudessem levar-nos a esmiuçar o sentido de cada palavra, de cada pensamento de um e de outro, para melhor aprofundarmos o que de inquietante aí vem. Mas sempre no pressuposto de que o que dizemos hoje pode não ser verdade em 2064. Tudo vai depender dos políticos que mandarem no mundo e das políticas que definirem. Fala-se muito do esgotamento dos recursos naturais mas, na opinião dos cientistas, a política, a comunicação e os relacionamentos também se esgotaram. «Hoje já não somos só o que comemos, somos muito mais e seremos cada vez mais aquilo que os políticos definirem para o nosso bem-estar, desde as políticas ambientais, de saúde, de trabalho, de natalidade, de compensação, etc.», diz Sobrinho Simões.

Seremos tudo o que conseguirmos prevenir e fazer para mudar a nossa vida. Sem medos nem receios da palavra envelhecimento, porque este é o caminho a partir do momento em que se nasce. «Começamos a envelhecer assim que nascemos», diz Elsa Logarinho. Afinal, é esta a doença que aí vem, de forma crónica, não aguda, e para todos, «se não dermos antes cabo do mundo», alerta o professor.

Hospital de São João, no Porto, numa manhã de terça-feira antes do Natal. As agendas dos dois cientistas estão recheadas de compromissos, mas um e outro adaptaram-nas. Para a conversa levaram pensamentos, ideias para discutir, mas também uma só pergunta: o que vai acontecer? O DN lançou outra.

Que doenças vamos ter em 2064? «Muitas, não tenho dúvidas, e a Elsa? Não sabemos o que nos vai acontecer, isso é impossível. Sabemos que vamos ficar muito velhinhos, vamos esticar tanto a idade das pessoas que vamos ter mais doenças, mas de outro tipo. Os cancros, por exemplo, serão pequeninos. O corpo de um velhinho não tem energia para que um cancro se desenvolva. Vão aparecer na mesma, até mais, mas quanto mais velhinhos ficarmos mais pequeninos serão.»

"Os políticos podem decidir que a partir de hoje ninguém come carne, ninguém anda de carro e ninguém usa plásticos. Nós obedecemos e assim acredito que possa haver mudanças."

«O que tem graça é que os cancros vão aumentar muito como incidência, mas não como causa de mortalidade», completa Elsa. «Vamos morrer de outras coisas. Em relação às doenças neurodegenerativas e ao Alzheimer, está previsto que em 2050 dupliquem, mas a esperança média de vida também vai aumentar para os 80 e muitos anos. Se hoje uma pessoa com 65 é capaz de procurar um geriatra, em 2064 projeto que só o faremos com 75 ou mais anos.»

Mas quais são as doenças que nos vão atacar mais?, insistimos. As que já existem, como o cancro, a diabetes, a artrite reumatoide, ou outras? Para o professor Sobrinho Simões, «vamos ter é insuficiência cardíaca, doenças cardiovasculares, insuficiência sistémica, essas vão ser as grandes doenças». Elsa Logarinho fala em «infeções e doenças virais. «Nem vai ser preciso que sejam vírus de estirpes muito raras, podem até ser de estirpes banais, mas se atacarem alguém em idade mais avançada será difícil dar a volta à infeção. Consegue fazer-se isso em pessoas mais jovens, mas com idade avançada não, porque já houve uma perda de resposta autoimune.»


O professor olha para a doutora e explica: «O que a Elsa está a dizer é muito importante. Vêm aí as doenças por falência da capacidade de resposta do organismo, porque vamos chegar a muito velhinhos e perder cada vez mais a eficiência na reparação de erros no nosso organismo, os erros que se vão acumulando ao longo do tempo. Só que seremos tão velhinhos que nada disto será dramático.»

Não? Nem assustador ou doloroso? O envelhecimento não nos fará sentir assim? «Não. Nada será dramático», responde o professor já reformado. Pelo contrário, «vai ser a possibilidade que temos de sobreviver com uma qualidade de vida muito longa».

"Vêm aí as doenças por falência da capacidade de resposta do organismo, porque vamos chegar a muito velhinhos e perder cada vez mais a eficiência na reparação de erros no nosso organismo."

Lado a lado na sala de reuniões do serviço de patologia, o diálogo entre os dois faz-nos perceber que vamos chegar a velhos, a muito velhinhos, com cancros, infeções e sem resposta imunitária para algumas situações. «À medida que temos envelhecimento vamos tendo ou não resposta imunitária à inflamação. Por isso, hoje usamos muito uma palavra, inflammaging», diz Sobrinho Simões.

O que é o envelhecimento senão um estado inflamatório? A diferença, diz Elsa Logarinho, «é que é um estado inflamatório crónico e não agudo. Não é como uma gripe». A bioquímica, que aos 15 anos soube que queria seguir investigação, esclarece: «O nosso organismo vai acumulando células velhinhas, zombies, senescentes, e essas células são pró-inflamatórias, enviam para o sistema imunitário químicos e proteínas que provocam estados inflamatórios. Mesmo as células saudáveis que estão vivas e na vizinhança acabam por estar sujeitas a essa inflamação. Daí o inflammaging.»

Sobrinho Simões interrompe: «Em 2064, as pessoas vão ter mais de 100 anos. A doutora sabe disto muito mais do que eu. Ela estuda o envelhecimento. Mas há algo que eu sei: temos muito pouca tradição de começarmos a cuidar-nos desde o nascimento.»

A conversa toca num ponto essencial: «Temos a palavra cuidar, mas ao contrário do que se pensa o cuidar não é compaixão - que também é importante. Mas este cuidar tem que ver com a ética do care. É o cuidar desde o nascimento. Portanto, a primeira coisa a fazer para se ter um velhinho razoável, saudável, é que seja cuidado desde recém-nascido, para já não falar da gravidez», afirma o patologista, acrescentando que se há mudanças que temos de fazer no futuro esta é uma delas. «As pessoas têm de começar a pensar em cuidar-se muito antes. As crianças têm de brincar, saltar à corda, têm de se mexer e têm de se relacionar.»

"A falta de atenção, de tempo, de ausência de relacionamentos, pode levar-nos a doenças ainda mais graves: às sociopatias. Serão estas as doenças do futuro? Não, Estas já são doenças do presente."

Elsa Logarinho interrompe-o também: «Isso é muito interessante. Os estudos sobre o envelhecimento estão a tentar perceber qual é o impacto a nível celular de todas as receitas que conhecemos, como as dietas, a restrição calórica, os períodos de jejuns, a importância do sono, o respeitar o ciclo circadiano, o exercício físico. Todos estes fatores estão a ser testados no modelo animal para se perceber a nível celular e molecular como podem influenciar e aumentar a esperança de vida no modelo animal e, depois, certamente no humano.»

Sobrinho Simões lança a dica da fome à investigadora e ela responde: «A fome é um aspeto muito curioso. Quando ficamos doentes, o que nos acontece logo? Deixamos de comer. É uma resposta ao estado inflamatório do nosso organismo. Faz-nos jejuar para baixarmos a inflamação.»

Ele acrescenta: «É uma resposta inteligente do organismo. As pessoas têm de dormir, as crianças têm de brincar, de aprender a lavar os dentes, não podem ter cáries, tudo isto importa.» E ela garante: «O pior no envelhecimento é o açúcar.»

Sobrinho Simões continua: «Há dietas que podem associar-se a certos tratamentos de doenças. Não são aquelas em que nos dizem que podemos comer muitos brócolos. Gostam de brócolos? Comam, mas não se encham disso. Temos é de ter esta noção: diminuir os hidratos de carbono. Os portugueses fazem uma alimentação hipercalórica, encharcam-se em açúcar.» Neste momento, e de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), trinta por cento das nossas crianças sofrem de obesidade. Não pode ser, algo tem de mudar. E a carne? Há que eliminá-la de vez da alimentação?, perguntamos. «Isso não, mas consumi-la com bom senso», defende o professor.

«A carne também tem o problema da sustentabilidade ambiental. A sua produção está a destruir o ambiente», argumenta a investigadora. O professor brinca: «As vacas é que estão a dar cabo disto tudo, mas nós gostamos tanto de carne... A grande descoberta é que em dois milhões de anos o ser humano ficou muito esperto. É algo extraordinário, e não sou crente. Saiu melhor do que as encomendas, mas agora podemos dar cabo de tudo.»


Dar cabo do mundo? «Claro», responde o professor. «Não é o capitalismo que vai dar cabo disto. Muito antes de acabar o capitalismo acaba o mundo, literalmente. As pessoas não fazem ideia do que está a acontecer com o clima ou com a biodiversidade.» A investigadora do I3S, que integra o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), interrompe-o: «O desequilíbrio da biodiversidade compromete o futuro e, em termos de projeções de doenças, podemos dizer que os grandes predadores - ratos, insetos, mosquitos -, que estão a ter migrações muito atípicas, são os maiores portadores de vírus. Na pior das projeções para 2064, posso prever que apareçam novas estirpes de vírus que não conseguiremos controlar. Estirpes com outras temperaturas, humidades. Por exemplo, o degelo do Ártico. Está tudo preocupado com o aumento do nível do mar, e com o que está no gelo? É que ali também estão vírus e bactérias que desconhecemos e que podem chegar cá.»

O ambiente e a biodiversidade entram na conversa. «Havia uma diversidade brutal de espécies e um equilíbrio que nos mantinha, mas se rebentarmos com ele ninguém consegue prever o que vai acontecer... e certamente que não é bom. Depois, em 2064, não vamos caber todos, seremos uns dez mil milhões a ocupar o solo, a usar a água e todos os outros recursos. Não vamos aguentar.»

Mas se há doenças que prevê para o futuro são as infeções e a falência do sistema. Todas as outras já nos acompanham e vão ser tratadas ou retardadas. «Estamos a esquecer-nos de uma coisa: os implantes», alerta Elsa. «Os ciborgues», ataca o professor. «Mas tudo quanto é prótese e implante só irá funcionar para cinco por cento da população. Pode haver um ciborgue para um Simões, mas para um milhão será difícil.» Ri-se: «Gosto muito dela porque pensa muito bem. Está a pensar melhor do que eu pensava [riem-se]. Nós cientistas devíamos conversar mais vezes.»

Como cientistas muito têm falado do fim dos recursos naturais - da água, do esgotamento dos solos, mas há outros dois pontos que se esgotaram: «A política esgotou-se. Por isso temos um desequilíbrio brutal. Veja a erupção dos populismos disparatados. E há outra coisa que queria discutir : a pouca disponibilidade para termos atenção. Ninguém tem atenção, não acha?», questiona o patologista.

«Acho. Isso é o que algumas pessoas chamam de personalidade computorizada. Estamos a tornar-nos pessoas do yes, no, like, delete. Transpondo isso para as doenças, serão as que implicam questões psicológicas.»

Sobrinho Simões vai mais longe e defende que a falta de atenção, de tempo, de ausência de relacionamentos, pode levar-nos a doenças ainda mais graves. «Às sociopatias.» Serão estas as doenças do futuro? Não, diz, estas já são doenças do presente, mas «podem agravar-se no futuro».

A cientista concorda: «Serão mais graves porque há a perda de contacto com a natureza, com a comunicação. As pessoas sabem cada vez menos relacionar-se. Já não contam histórias uns aos outros», comenta o professor, contador nato de experiências vividas. «A falta dessa componente afetiva e emotiva vai refletir-se social e economicamente», argumenta Elsa Logarinho. «Às vezes penso que quando há grandes desequilíbrios na sociedade aparecem medidas retificativas. No futuro, quero acreditar que vai acontecer o mesmo e que alguma coisa será feita.»


«Tem de ser feita alguma coisa, quanto mais não seja por medo», argumenta o cientista. A investigadora reforça: «Tem de haver uma mobilização mundial. Independentemente dos políticos doidos ou não, tem de haver algo que permita convergir no sentido de medidas retificativas e eficazes, quer no ambiente quer no trabalho ou em todas as outras políticas. Os políticos podem decidir que a partir de hoje ninguém come carne, ninguém anda de carro e ninguém usa plásticos. Nós obedecemos e assim acredito que possa haver mudanças...»

A sociedade de que falam, a que não tem disponibilidade para a atenção, tempo para relacionamentos, deixará de ser competitiva?

«Não sei», responde o professor. Será uma sociedade repleta de personalidades computorizada? «Já é uma sociedade do imediatismo, em que acabou toda e qualquer forma de nos expressarmos que não seja por uma emoção. Não há tempo para os sentimentos, já ninguém os quer. O imediatismo trouxe a recompensa imediata para tudo. Por isso pergunto à Dra. Elsa: o que vai acontecer? Como serão estes miúdos dos computadores? Serão competidores? O que vão eles trazer-nos?»

«Eles podem ser competidores ou não, mas a adição à tecnologia é um comportamento aditivo e isso nunca é saudável. Ou seja, pode acontecer que muitas das pessoas desta geração, ao terem este comportamento aditivo, percam uma certa noção da responsabilidade com o trabalho, com a família e isso...» O professor interrompe e lança mais uma certeza: «A família acabou. E não só. E o sexo? Como vai ser? É que isto também tem importância.»

«O sexo será virtual», diz Elsa Logarinho a rir. O professor insiste: «Isto é muito importante. Há muitos estudos que dizem que os jovens fazem cada vez menos sexo.» E isso vai tornar-se uma doença? Vai influenciar o envelhecimento? «Vai afetar a demografia», responde Sobrinho Simões. «Acabaram as crianças nas sociedades desenvolvidas, eu não vejo crianças, só vejo corpos velhinhos. Mas não sei o que vai acontecer, sou de uma geração em que o sexo era das melhores coisas que havia. Agora, parece que dá um trabalhão, que é uma chatice.»

O sexo será ou não uma compensação para o ser humano? Uma expressão de afeto? Será só uma necessidade? Poderá ser substituído por outros estímulos? As perguntas ficam no ar. Elsa ri-se. «Eu tenho miúdos pequenos e fico passada quando me dizem que não têm nada para fazer, se a televisão está desligada ou se estão sem o tablet. Digo-lhes logo: vão brincar. Mas isto é o que acontece hoje, tanto crianças como jovens têm pouco contacto com o exterior. E isso vai influenciar também a forma como vamos envelhecer.»

Vivemos a geração das crianças superesterilizadas. Onde é que isso irá levar-nos? A mais autoimunidades? Sobrinho Simões reage: «As alergias estão a aumentar extraordinariamente, em parte por isso. É assustador. Os pais e os professores têm medo de que as crianças brinquem, que se sujem, que tenham contacto com a água ou com a terra. Eu não queria acreditar quando li que um terço das crianças portuguesas não sabiam saltar à corda.»

Para os cientistas, esta questão é importante e faz-nos regressar às doenças. Quais vão ser piores? Quais as que são o mal menor? Como as prevenir? O investigador não tem dúvida: «Para mim, as piores, se não estiver diminuído mentalmente, serão as que estão associadas à falta de mobilidade, visão e audição. E o mais engraçado é que estas aparecem em grande parte porque não temos a tal ética do cuidar, do care, de um estilo de vida que nos leve a viver muito mais fora do que dentro.»

A investigadora do I3S, também nascida e criada no Porto, curso feito na universidade da cidade, relembra que «o envelhecimento é contínuo, nós próprios adiamos a nossa idade desde o dia em que nascemos». Por isso, tudo o que se fizer para o nosso bem-estar «tem de ser preventivo e não retificativo. Espero que em 2064 a sociedade esteja mais informada sobre qualidade de vida, acredito que haverá maior tendência para seguir boas dietas, para se fazer exercício físico regularmente e que tudo isto ajude a aumentar a esperança média de vida, porque a que se alcançou até agora foi pela melhoria dos cuidados médicos.»

Agora é a vez da medicina. O que nos trará no futuro a área que progrediu à velocidade da luz no último século - da penicilina à robótica? «Vamos ter mais capacidade para tratar, prestar cuidados médicos», diz Sobrinho Simões.» O mais interessante vai ser perceber «quanto mais a medicina e a investigação poderão estender a nossa longevidade pelo tratamento dos órgãos», lança a bioquímica.

«Se nos mantivermos todos com os nossos órgãos, se não fizermos substituições de peças, até onde poderemos ir? Há um estudo sobre a esperança média de vida para indivíduos com 100 anos que é igual tanto para o início do século xx como para o xxi. Parece que os 100 anos são a nossa base genética. O que acha?» Sobrinho Simões responde: «A espécie tem limites. Individualmente, poderemos ir até aos 110 ou 120, mas no geral não.»

Sendo o cérebro o órgão mais difícil de tratar e estando as doenças neurodegenerativas a aumentar, o futuro é assustador? «Não. O que é preciso é estimular a regeneração», explica o patologista. «Sabemos que as células pró-inflamatórias no cérebro estão a contribuir para a incidência ou para o agravamento das doenças neurodegenerativas, como Alzheimer ou Parkinson. Se conseguirmos retificar estes estados inflamatórios, através de melhor qualidade de vida, ou de medicação que se descubra entretanto, talvez possa adiar-se a neurodegeneração», diz a investigadora.

O que envelhece primeiro no nosso organismo? É possível saber? Não, dizem-nos. Os órgãos comunicam uns com os outros. Mas o que é pior? Ter um fígado velho com um cérebro jovem ou um cérebro mais velho e um fígado novo? Isto será inevitável? «Não, mas é uma verdade», diz o professor. «Pode haver assimetrias em que nem a cabeça nem o corpo funcionam», adianta Elsa Logarinho, que espera que o futuro traga «terapias antienvelhecimento eficazes».

E a depressão? O tempo que tinham para conversar está a terminar e ainda não se falou da doença que dizem ser a epidemia deste século. Portugal é dos países da Europa onde mais se consome ansiolíticos e antidepressivos. A perspetiva de uma sociedade computorizada levará a que a doença aumente ainda mais? Para a investigadora, «a depressão vai crescer», mas diz que esta não é a sua área e que tem muita dificuldade em classificar as doenças. «O que me preocupa é o rótulo dado a estas doenças.» Sobrinho Simões comenta: «Há muitas demências, mas não sei se há mais depressão. O que sei é que somos dos povos do mundo que mais medicamentos tomamos para a depressão. Somos grandes consumidores de pastilhas, pingos e TAC.»

«Eu tomo algumas. Só de pensar que vou ter uma dor de cabeça tomo logo uma pastilha», confessa. Elsa assume: «Não tomo nada. Mas no caso do professor parece funcionar, pelo menos previne.»

Depois do riso, a preocupação. «Ninguém sabe se a depressão está a aumentar, o que está a aumentar são os velhinhos. E voltamos ao mesmo, às doenças do futuro, que, no fundo, será uma só: o envelhecimento.»

Doenças previsíveis como artrite reumatoide, artroses, diabetes, cancro e Alzheimer vão acompanhar-nos. Disto não há que duvidar. Poderemos ser surpreendidos pelas imprevisíveis: as virais. E a surpresa pode chegar pelo simples facto de se rejeitar a vacinação. «Podemos voltar a ter doenças que pensávamos estarem erradicadas», alerta Elsa. «Mas podem trazer algo mais sério, como o que aconteceu na viragem do século xxi, o vírus HN1, ou até uma peste. É catastrófico, eu sei, mas é o imprevisível.»

Para 2064, Sobrinho Simões tem um grande receio: «Como vai ser o poder? Vai ser mais concentrado, mais capitalista, de face chinesa ou americana? Vão ser poucos a mandar e o resto a trabalhar? Vão querer que sejamos muito saudáveis e felizes para sermos mais produtivos? Ou vão querer apenas mão-de-obra barata e tratar-nos à bruta? Esta é a grande questão: como vai ser a política?»

«Se não forem parvos, vão querer que sejamos civilizados, magrinhos, saudáveis, simpáticos, bem-educados», diz a rir-se. Elsa acrescenta: «E põem-nos a trabalhar até aos 80 anos.» «Exatamente. Não tenho dúvidas de que as doenças do futuro serão aquelas que os políticos quiserem, aquelas que surgirão das políticas que aprovarem quer a nível ambiental quer de trabalho, natalidade, lazer, prazer. Tudo isto importa.»

No final, ainda há tempo para elogios, perguntas e comentários entre os dois. «Aprendi imenso com ela. Pensa muito bem. Ainda está na fase em que pensa que é praticamente imortal. Eu já estou na fase em que não estou assustado, mas triste com a velhice. A Dra. Elsa ainda tem o olho brilhante quando fala de tudo.»

Elsa Logarinho contra-argumenta: «Eu é que continuo a aprender com o professor. É um exemplo do que é o envelhecimento ativo. Portanto, não pode estar pessimista. É o que todos deveríamos projetar para nós em 2064.» Ele, que já passou por um acidente vascular cerebral, confessa: «Sabe, tenho uma toxicodependência: o trabalho. É uma fuga em frente.» Ela responde de forma positiva: «Apesar de tudo, não é bom estar aqui?» «Sim, é bom. Se pudermos levantar-nos de manhã», responde o professor a rir-se. O tempo acabou. Agora esperava-o uma reunião em Coimbra.

Será esta a receita para 2064?


sexta-feira, 29 de março de 2019

Monsanto condenada a pagar mais de 70 milhões de euros por cancro ligado a herbicida

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Herbicida Roundup que contêm glifosato STEFFEN SCHMIDT/LUSA

Tribunal federal norte-americano considera que a exposição ao herbicida Roundup, que contêm glifosato, contribuiu para o desenvolvimento de um linfoma não-Hodgkin a um doente. Esta já é a segunda vez que a empresa alemã é condenada, mas vai recorrer da decisão.

A empresa agro-química Monsanto foi condenada esta quarta-feira pelo tribunal federal de São Francisco (Estados Unidos da América) a pagar 71,8 milhões de euros (81 milhões de dólares) a um cidadão norte-americano com um linfoma não-Hodgkin. A empresa adquirida pela alemã Bayer no ano passado foi acusada de não ter informado o cliente do risco potencialmente cancerígeno do herbicida Roundup, que contém glifosato. A Bayer anunciou que vai recorrer da sentença, mas os efeitos desta decisão judicial já foram sentidos: as acções da empresa afundaram mais de 10%, atingindo o seu nível mais baixo em mais de seis anos.

Edwin Hardeman, de 70 anos, utilizava o herbicida Roundup há mais de três décadas na sua propriedade no condado de Sonoma, na Califórnia. Em 2015 foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkin, um tipo de cancro que se desenvolve no sistema linfático e pode afectar várias partes do organismo. O tribunal federal norte-americano considerou que a exposição a este herbicida foi um “factor substancial” no desenvolvimento do cancro deste doente, refere o jornal Le Monde. Esta não é a primeira vez que a empresa alemã é obrigada a pagar uma indemnização: em Agosto de 2018 a Bayer foi condenada a pagar 251 milhões de euros a um jardineiro a quem também foi diagnosticado um linfoma não-Hodgkin, nessa altura a empresa também recorreu da sentença.

A agro-química continua a defender o seu produto e a negar que o glifosato possa ser perigoso para a saúde humana. A Bayer afirmou ainda que “o veredicto não muda o peso de mais de 40 anos de ciência, nem os resultados dos reguladores em todo o mundo que argumentam que os herbicidas com glifosato são seguros e não-cancerígenos”, citado pela Agência Reuters.

Apesar da idade avançada e do historial de hepatite C (uma condição que pode aumentar o risco de desenvolver este tipo de cancro) a gigante alemã foi considerada culpada. A decisão do tribunal federal norte-americano foi também influenciada pelo facto de existirem também cerca de 700 queixas semelhantes pendentes no mesmo tribunal e 11.000 casos idênticos já em andamento nos Estados Unidos da América. No entanto, a empresa alemã acredita que esta condenação não vai afectar o rumo dos casos ainda por julgar, alegando que “cada um é marcado pelas suas próprias circunstâncias, legais e factuais”, afirmou ao Le Monde.

O glifosato é um dos herbicidas mais utilizados em Portugal e no mundo por ser um produto de baixo custo e eficiente no combate às ervas daninhas. A autorização de comercialização na União Europeia deste herbicida está em vigor até 2022. Apesar do sucesso de vendas, o glifosato já foi alvo de várias polémicas e os seus efeitos para a saúde humana e para o ambiente continuam a ser discutidos.

Em Março de 2015, a Agência Internacional para a Investigação do Cancro da Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou que o herbicida era genotóxico e “provavelmente” um carcinogénico, levando a preocupações a nível mundial sobre o perigo desta substância para a saúde humana. Porém, em 2017, os Estados-membros aprovaram a proposta da Comissão Europeia para a renovação da licença de uso do glifosato por mais cinco anos, até 15 de Dezembro de 2022. Segundo um outro estudo publicado à data na revista Science of the Total Environment e citado por associações ambientalistas, Portugal é o país europeu mais contaminado por este herbicida. 

Já em Janeiro deste ano, veio a público que o relatório encomendado pela União Europeia sobre os riscos da utilização de glifosato (e que foi decisivo para a tomada de decisão que autorizou o herbicida na Europa em 2017) foi copiado de um documento que a Monsanto e os seus parceiros industriais, produtores da substância, entregaram às autoridades europeias.

O linfoma não-Hodgkin (LNH) afecta sobretudo pessoas com idades avançadas e é mais predominante em homens do que mulheres, representando mais de 80% dos casos de linfoma. Ao longo dos últimos anos, a incidência deste tipo de cancro na população tem vindo a aumentar.

fonte: Público

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Bayer afunda em bolsa após tribunal nos EUA validar que glifosato causou cancro

Bayer afunda em bolsa após tribunal nos EUA validar que glifosato causou cancro

Na segunda-feira à noite, um juiz dos Estados Unidos reduziu a indemnização paga à Monsanto em mais de 200 milhões de dólares, para 78 milhões, mas confirmou a fundamentação da sentença lida no verão em São Francisco.

Os títulos da gigante química alemã Bayer estão em forte queda na bolsa alemã, após a confirmação, nos Estados Unidos, da condenação de sua subsidiária Monsanto por esconder a perigosidade do Roundup, o seu herbicida com glifosato.

As acções da Bayer descem 7,25% para 70,99 euros na Bolsa de Frankfurt, elevando as suas perdas para mais de 30% desde o início do ano. Na sessão de hoje os títulos já estiveram a cair 8,52%.

Na segunda-feira à noite, um juiz dos Estados Unidos reduziu a indemnização paga à Monsanto em mais de 200 milhões de dólares, para 78 milhões, mas confirmou a fundamentação da sentença lida no verão em São Francisco.

Os investidores vêem a sentença como "uma surpreendente derrota para a Bayer", de acordo com o jornal Süddeutsche Zeitung, já que a decisão provavelmente influenciará as mais de oito mil acções em andamento nos tribunais nos Estados Unidos por causa dos produtos de glifosato da Monsanto.

Depois de um processo retumbante, um júri popular de São Francisco concluiu em 10 de Agosto que a Monsanto, que em breve seria absorvida pela Bayer, agiu de forma "maliciosa" ao esconder a natureza potencialmente cancerígena do glifosato.

De acordo com esse julgamento, que já havia provocado a queda da Bayer no mercado de acções, os herbicidas Roundup e a RangerPro contribuíram "significativamente" para o cancro de Dewayne Johnson, de 46 anos, um jardineiro que tem a doença em estado terminal.

Após a nova decisão na segunda-feira, a Bayer disse que a redução acentuada na indemnização a pagar foi "um passo na direcção certa", mas continua a contestar fundamentalmente a perigosidade do glifosato e pretende recorrer.

A gigante alemã, que aposta a médio prazo no papel crescente da química para alimentar o planeta, teve que desembolsar 63 biliões de dólares (54 biliões de euros) para adquirir a Monsanto, ao mesmo tempo que entregou 7,6 biliões de euros em activos à sua compatriota BASF.


domingo, 28 de outubro de 2018

Teorias dos rastos químicos dos aviões chegam ao Parlamento

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Rastos deixados pelos aviões levantam dúvidas

A possibilidade de os aviões estarem a deixar rastos químicos na atmosfera - chemtrails - vai ser debatida hoje na Assembleia da República. A discussão deve-se a uma petição que reuniu 4384 assinaturas (quando foi admitida a 21 de março e que agora conta com 4572). O primeiro subscritor da petição, Tiago de Jesus Lopes, espera que pelo menos agora, os deputados "esclareçam o que pensam desta situação". No entanto, este é um tema que não tem validação científica e que, por exemplo, Francisco Ferreira, da Zero, classifica apenas como "teoria da conspiração".

Os subscritores da petição - que levou mais de cinco anos a reunir as quatro mil assinaturas - defendem que os aviões estão a deixar, pelo país, rastos químicos que servem para manipular o clima e acabam a poluir o meio ambiente. O texto da petição refere "relatos deixados por exemplo no Facebook, de cidadãos de vários pontos do país, de aviões que sobrevoam o espaço aéreo e libertam produtos químicos deixando um rasto visível durante horas". E questionam se este fenómeno não "poderá estar relacionado com as alterações climáticas e o aumento de patologias nomeadamente alérgicas, respiratórias e oftalmológicas?". Para Tiago de Jesus Lopes tem-se tornado evidente que o objetivo da libertação de aerossóis "não pode ser o objetivo primário que se anunciava de formar vários tipos de nuvem, que permitia fazer cair chuva onde quisessem". "Eles também dizem que é para fazer a gestão da radiação solar, mas essas partículas estão em todo o lado, são metais pulverizados e ficam em todo o lado", acrescenta.

Junto com a petição, foram enviados aos deputados da Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, links que sustentam as dúvidas e preocupações dos peticionários.


A comissão ouviu o primeiro peticionário, na audição regimental, onde não estiveram os grupos parlamentares. A petição vai agora ser debatida em plenário, por imposição legal.

Se Tiago de Jesus Lopes espera ver esclarecidas as posições dos partidos - embora sem grande expectativa de mudanças, principalmente nos "grupos principais que vão defender as diretivas europeias" -, Francisco Ferreira espera que "a teoria seja recusada".

"A Zero já recebeu muitos emails de pessoas a queixarem que não dávamos atenção à questão e tentamos sempre responder. Se os deputados entenderem que deve haver algum esclarecimento das companhias aéreas ou da gestão dos aeroportos - que penso ser desnecessário face ao conhecimento técnico e científico que explicam o aparecimento dos rastos -, que devem pedir pareceres para esclarecer a população, pode ser útil, nessa perspetiva pedagógica", defende o ambientalista. Os cientistas explicam que os rastos resultam da emissão de partículas ultra finas por parte dos aviões que em contacto com a atmosfera condensam.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Tribunal nos EUA confirma perigo de herbicida com glifosato



Os títulos da gigante química alemã Bayer caíram no mercado de ações, após a confirmação, nos Estados Unidos, da condenação de sua subsidiária Monsanto por esconder a perigosidade do Roundup, o seu herbicida com glifosato.

A Bayer caiu de 6,69% para 71,42 euros na Bolsa de Valores de Frankfurt, elevando as suas perdas para mais de 30% desde o início do ano.

Na segunda-feira à noite, um juiz dos Estados Unidos reduziu a indemnização paga à Monsanto em mais de 200 milhões de dólares, para 78 milhões, mas confirmou a fundamentação da sentença lida no verão em São Francisco.

Os investidores veem a sentença como "uma surpreendente derrota para a Bayer", de acordo com o jornal Süddeutsche Zeitung, já que a decisão provavelmente influenciará as mais de oito mil ações em andamento nos tribunais nos Estados Unidos por causa dos produtos de glifosato da Monsanto.

Depois de um processo retumbante, um júri popular de São Francisco concluiu em 10 de agosto que a Monsanto, que em breve seria absorvida pela Bayer, agiu de forma "maliciosa" ao esconder a natureza potencialmente cancerígena do glifosato.

De acordo com esse julgamento, que já havia provocado a queda da Bayer no mercado de ações, os herbicidas Roundup e a RangerPro contribuíram "significativamente" para o cancro de Dewayne Johnson, de 46 anos, um jardineiro que tem a doença em estado terminal.

Após a nova decisão na segunda-feira, a Bayer disse que a redução acentuada na indemnização a pagar foi "um passo na direção certa", mas continua a contestar fundamentalmente a perigosidade do glifosato e pretende recorrer.

A gigante alemã, que aposta a médio prazo no papel crescente da química para alimentar o planeta, teve que desembolsar 63 biliões de dólares (54 biliões de euros) para adquirir a Monsanto, ao mesmo tempo que entregou 7,6 biliões de euros em ativos à sua compatriota BASF.


sábado, 20 de outubro de 2018

Manipular o clima já não é ficção. Mas a realidade pede (muita) prudência


As novas soluções para manipular o clima têm um alcance global nunca visto, de consequências tão imprevisíveis, que a maioria dos cientistas nem as quer testar. “Isto pode provocar guerras”, diz um climatologista

Há muito que a dança da chuva dos povos indígenas deixou de ser a esperança da Humanidade para mandar vir água dos céus. Rezas e procissões, que no ano passado se viram em Portugal numa tentativa de acabar com a seca, também já passaram de moda. Persistem os canhões de granizo e a inseminação de nuvens, técnicas introduzidas há várias décadas para impedir a queda de gelo e provocar a chuva, embora de eficácia duvidosa aos olhos de boa parte da comunidade científica. São as soluções em estudo para manipular o estado do tempo que parecem apresentar, enfim, o potencial de influenciar o clima à escala planetária, de tal modo que só uma minoria de cientistas se atreve a dar a cara por elas.

“São atrativas na teoria, mas podem ser muito perigosas na prática”, sustenta o climatologista Carlos da Câmara, sobre as propostas de geoengenharia para controlar os humores de São Pedro. A mais controversa envolve o aumento da capacidade de refletir a luz solar, de forma a reter menos calor e assim arrefecer a temperatura da Terra. Sugestões tão mirabolantes como cobrir desertos de plástico, remexer a água do mar para formar camadas de espuma branca ou posicionar espelhos gigantes no Espaço parecem impossíveis de concretizar, mas existem alternativas mais acessíveis para devolver raios de Sol ao Universo.

A principal passa por lançar na estratoesfera dióxido de enxofre (SO2), criando uma espécie de véu protetor, a muitos quilómetros da superfície terrestre, semelhante ao das erupções vulcânicas. A ideia, aliás, surgiu a partir de evidências científicas que demonstraram que as partículas expelidas pelos vulcões podem resultar, no ano seguinte, no arrefecimento da temperatura em um grau. Tem a vantagem de ser uma medida economicamente viável, mas encontra forte resistência devido aos efeitos, totalmente imprevisíveis, que pode gerar no clima, a nível global. Em abril, 12 cientistas assinaram um texto na revista Nature a reclamar prudência nas experiências.

“Imagine-se que ocorre uma seca brutal na Península Ibérica ou na Índia, em época de monções, das quais dependem milhões de pessoas para sobreviver. Ninguém saberia ao certo se era um fenómeno natural ou consequência da geoengenharia”, ilustra o climatologista Ricardo Trigo, aflorando outro foco da polémica: “Isto pode provocar guerras. Quem seria o político que assumiria uma responsabilidade deste alcance? Nem Trump se mete nisso.”

Financiado por Bill Gates e outros bilionários americanos, o projeto Scopex tem previsto para este ano um teste de pequena escala desta tecnologia. David Keith, professor de Física Aplicada em Harvard, lidera a investigação, que ganha força perante a necessidade, saída do Acordo de Paris, de não deixar o termómetro subir mais do que dois graus até ao final deste século (sendo que já subiu um). O problema é que nenhum teste de pequena escala conseguirá antecipar o impacto real da geoengenharia solar, a ponto de estarem proibidos à luz da Convenção sobre a Diversidade Biológica – que os Estados Unidos da América não assinaram.

Outra hipótese de alcance global para mexer com o clima passa por capturar dióxido de carbono da atmosfera. Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, considera esta alternativa menos arriscada, no sentido em que “vai à raiz do problema”: a excessiva concentração de gases com efeito de estufa. A falta de valor económico do CO2, porém, dificulta a aposta na solução. “Nos Estados Unidos da América e na Europa já há centrais térmicas a carvão que capturam o dióxido de carbono dos gases que saem da combustão. Só não há mais porque a eletricidade fica mais cara para o consumidor”, argumenta o presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, acrescentando que a escolha se faz entre duas opções: “Ou se investe para resolver o problema de gerações futuras ou então quem vier a seguir que pague a fatura.”

GUERRA DE CHUVA

O controlo do clima é uma ambição que as grandes potências perseguem em várias frentes. Na Guerra do Vietname (1955-1975), os Estados Unidos da América agravaram as chuvas das monções do lado do inimigo, através da técnica de inseminação de nuvens, ainda hoje a mais popular. O objetivo da operação Popeye, como lhe chamou o exército americano, era enlamear os caminhos para dificultar o abastecimento aos soldados vietnamitas, a partir dos territórios vizinhos do Laos e do Camboja.

Fazer da manipulação do clima uma arma de guerra foi, entretanto, proibido pela Convenção de Genebra, no final dos anos 70, mas lançar iodeto de prata na atmosfera é hoje uma prática corrente em muitos países, para fins bem mais pacíficos. A China tem vindo a desenvolver um sistema para fazer chover em zonas mais áridas e, em vez de recorrer a aviões para soltar os químicos, instalou centenas de câmaras de combustão no Tibete, capazes de gerar iodeto de prata e o libertar na direção das nuvens.

Durante os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, os chineses já tinham montado uma gigantesca operação para evitar que a chuva desabasse sobre as competições, com satélites para identificar nuvens num raio de quase 50 mil quilómetros quadrados. O plano tinha duas alternativas: ou provocavam a chuva longe do recinto ou dissipavam as nuvens com outros produtos químicos, como se acredita que os soviéticos já tinham feito nas Olimpíadas de Moscovo, em 1980.

Apesar de ser já longo, o caminho para manipular a meteorologia, apoiado nas inovações tecnológicas, ainda tem muito para andar.

fonte: Visão

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Já aí estão os serviços de "lavagem cerebral" via Internet


Uma empresa oferece pacotes personalizados para influenciar as vontades alheias. Autêntica manipulação ao domicílio. Podem encomendar-se “serviços” para levar alguém a deixar de fumar ou a estar disponível para amar. Uma espécie de vodu dos tempos modernos

No passado, era a publicidade, declarada ou mais subliminar, a influenciar a compra de um carro, de um detergente, a fazer desejar um certo estilo de vida. No futuro, é possível que as nossas vontades e opiniões sejam manipuladas durante os sonhos, como se prevê no thriller de Christopher Nolan, A Origem, de 2010, e, muito antes disso, no romance Admirável Mundo Novo, escrito em 1931 por Aldous Huxley. No presente, somos bombardeados nos computadores, telefones ou tablets com anúncios/artigos que vêm ao encontro das nossas preferências ou dos nossos anseios. Quem nunca visitou a página do turismo de uma cidade e passou a ser inundado com anúncios de hotéis ou ofertas de viagens para esse mesmo destino?

Tudo isto acontece graças aos cookies – informação que fica guardada nos dispositivos de cada vez que visitamos um website, uma espécie de pegada ou rasto digital, e que está na base do marketing na era da internet. Agora, uma empresa registada em Londres oferece o que pode ser visto como um serviço de manipulação ao domicílio. Com a aplicação The Spinner é possível controlar os artigos que são apresentados a uma determinada pessoa, de forma a influenciar o seu comportamento. Os textos vão aparecendo nos dispositivos eletrónicos utilizados pelo visado, recheados de uma mensagem específica.

É possível, por exemplo, encomendar uma campanha a favor de um animal doméstico. São os adolescentes os principais clientes deste serviço e o visado, ou os visados, neste caso os pais, receberão artigos com títulos como “12 razões para a sua família ter um cão”. Também se pode tentar convencer alguém a deixar de fumar ou a pensar em mudar de emprego (imagine que quer ver-se livre de um colega de trabalho...). O pedido mais comum, revelou um responsável da empresa ao jornal Financial Times, é o pacote que predispõe uma mulher a dar o primeiro passo no sexo. Neste caso, o computador e o telemóvel da visada são inundados com supostos artigos de revistas femininas, nos quais se louvam as virtudes de dar o primeiro passo numa relação amorosa.

De acordo com as informações disponíveis no site, a aplicação, não disponível em Portugal, funciona de uma forma bastante simples: o cliente recebe um link de aparência inocente, criado pela The Spinner, que o envia ao visado. Assim que este abre o link, o pacote encomendado (deixar de fumar, por exemplo) fica associado ao telefone e a partir daí começa o “ataque”. Durante três meses, a pessoa irá receber dez artigos diferentes, todos com o mesmo objetivo, em 180 pop-ups, numa técnica que se socorre do poder de sugestão bem conhecido na psicologia. Este pacote básico custa à volta de 25 euros e, de acordo com a própria empresa, é perfeitamente legal. “Hoje, no vasto mercado de média online, o anexo de cookies é legal. Terceiros podem recolher ou receber informação sobre os utilizadores, com vista a fornecer conteúdo, publicidade ou funcionalidades ou ainda para medir e analisar o desempenho de um determinado anúncio”, explica-se.

Desde que o serviço foi lançado, em janeiro deste ano, mais de cinco mil pessoas, de acordo com o Financial Times, já pagaram para influenciar alguém de quem gostavam, ou não. “Há linhas que não cruzamos, se nos sentimos desconfortáveis”, assegurou Elliot Shefler, responsável pelo marketing da empresa, que dá como exemplo “questões altamente sexuais” (o detalhe destas propostas fica a cargo de cada um). “É uma ferramenta poderosa”, admite o responsável.

UM EMPURRÃOZINHO

É esta capacidade de influenciar, embora a uma escala mais vasta, visando toda a sociedade, que está na base do trabalho de Richard Thaler, Nobel da Economia em 2017. O economista social criou o conceito de nudge, empurrãozinho, que parte da ideia de que é possível influenciar o comportamento das pessoas, de forma positiva, através de medidas simples. Um exemplo clássico é o sistema de doação de órgãos que vigora em Portugal e que tem vindo a ser adotado noutros países europeus. O facto de todos os portugueses serem, à partida, dadores de órgãos – para não o serem é necessário deixarem esta vontade expressa – resulta numa boa taxa de doação. Noutro exemplo mais prático, o Aeroporto de Amesterdão pôs o desenho de uma mosca nos urinóis, para levar os utilizadores a fazer pontaria. Com isto conseguiu-se uma poupança na ordem dos 80% em detergentes.

Inspirado nesta teoria, Diogo Gonçalves, psicólogo e especialista em economia comportamental, criou a empresa Nudge Portugal que, neste momento, trabalha numa campanha com a qual se pretende aumentar o consumo de fruta e legumes, numa determinada cadeia de hipermercados. Sem poder revelar muitos pormenores, o empreendedor conta que a estratégia passará pela alteração dos carrinhos de compras. A ideia desta startup é de que a sua utilização seja pró-social. “Não me imaginaria a participar numa campanha para aumentar a venda de doces a crianças”, refere o responsável.

Porém, pode não ser sempre assim. Aliás, o especialista está a organizar uma conferência em Lisboa, envolvendo decisores políticos e organizações internacionais, na qual se discutirá precisamente os riscos e as potencialidades das aplicações de nudging. “É preciso promover a discussão pública acerca da utilização de aplicações como The Spinner, que promovem influência direcionada e não declarada. Hoje em dia, o espaço digital permite que as empresas saibam mais sobre as pessoas do que elas próprias. Faz falta avaliar a moralidade dos mercados. As políticas públicas têm sido dominadas pelos economistas. Precisamos de ouvir outros cientistas sociais, como os neurocientistas”, acrescenta. Depois deste debate, defende Diogo Gonçalves, “deve haver regulação neste setor de atividade”. Afinal, uma questão deverá estar sempre em cima da mesa: até que ponto queremos que nos entrem pela vida adentro?

À caça de dados

As análises de big data que põem em causa a democracia

Acedendo, sem permissão, a dados pessoais de mais de 50 milhões de pessoas utilizadoras do Facebook, a consultora britânica Cambridge Analytica enviou publicidade personalizada que influenciou o voto a favor de Donald Trump. A estratégia passa essencialmente pelo fabrico de notícias falsas e terá sido usada também na campanha pró--Brexit e, suspeita-se, nas eleições indianas. A fuga de informações pessoais poderá ter chegado a entidades russas, com interesse em condicionar o resultado das eleições norte-americanas de 2016. Depois de uma série de notícias reveladoras, a empresa acabou por abrir falência, atolada em processos judiciais. Quanto ao Facebook, fez o mea culpa, pela boca do seu fundador, Mark Zuckerberg, mas tarde demais. Desde 2015 que os responsáveis da rede social sabiam da fuga, mas nada fizeram para a travar.

Aliás, um relatório recente da Universidade de Oxford, no Reino Unido, identificou iniciativas de “manipulação do debate público”, para influenciar eleições e políticas em 48 países, nos últimos oito anos. Difusão de notícias falsas e contratação de grupos para escreverem nas caixas de comentários são os esquemas mais usados. E as redes sociais são o palco privilegiado para estas manobras que atentam contra a democracia.

Jornalista

fonte: Visão

terça-feira, 18 de julho de 2017

OGM 2.0: novo tipo de alimento geneticamente modificado

Manifestação contra plantio de OGM em Londres (Graeme Robertson / Getty Images)

Manifestação contra plantio de OGM em Londres (Graeme Robertson / Getty Images)

Novas tecnologias utilizada na produção de alimento geneticamente modificado conseguem burlar a regulamentação.

Os Estados Unidos demorou para aprender como lidar com os diferente tipos de organismos geneticamente modificados (OGM) que existem no país há décadas.

Agora, um novo tipo de OGM já está disponível nos supermercados e os reguladores não sabem com lidar apropriadamente com este novo cenário.

As novas tecnologias – que foram desenvolvidas nos últimos cinco anos – são diferentes da modificação genética que é comumente usada. Elas são mais precisas, de forma que os cientistas dizem que há um risco menor de causar alterações não intencionais ao ADN. No entanto, ainda continuam alterando artificialmente o ADN dos organismos.

Elas possuem diferentes nomes e muitas vezes aparecem disfarçadas em produtos, se utilizando de brechas na regulamentação de OGMs dos EUA. Crispr-Cas9 e Talen são duas dessas tecnologias, por exemplo; e “novas técnicas de criação de plantas” ou “edição de genes” são alguns dos termos amplamente utilizados.

Atualmente, cerca de 5% do óleo de canola dos EUA é cultivado a partir de sementes modificadas com uma dessas novas tecnologias, de forma que muitas empresas já estão preparadas para comercializar novos produtos nos próximos anos com esses OGM. O cultivo de milho, soja, linhaça e outras culturas alimentares também será produzido com essas novas técnicas.

Governantes dos EUA e de outros países estabeleceram regulamentações para utilização de OGM. Mas, em geral, essas novas técnicas não estão sujeitas a esses regulamentos. Isso ocorre porque as definições do que constitui um OGM variam entre os órgãos reguladores e muitas vezes não abrangem essas novas tecnologias.

Seus defensores dizem que esses produtos não devem ser considerados OGM devido aos avanços na tecnologia. Os opositores dizem que qualquer modificação de genes ainda é uma modificação genética não importa a técnica utilizada e deve continuar sendo regulada como tal.

Como funcionam os novos alimentos geneticamente modificados

As tecnologias de engenharia genética tradicionais e modernas apresentam variações e complexidades, mas, em geral, a diferença é a seguinte.

As técnicas mais antigas criam plantas com traços desejáveis, porém incluem genes de espécies diferentes ao ADN das plantas. Por exemplo, um gene pode ser retirado de uma bactéria e inserido no ADN de uma planta de milho para tornar a planta resistente a pragas. Outro produto comercialmente disponível é uma soja que possui um gene de uma bactéria que a torna resistente a herbicidas.

As novas técnicas, por outro lado, podem direcionar os genes desejados de forma mais precisa e alterá-los sem incluir ADN estranho.

A técnica anterior cria algo que nunca seria encontrado na natureza – o ADN de uma bactéria não entraria naturalmente no ADN de uma planta. O último cria algo que, argumentam os proponentes, poderia desenvolver-se na natureza ou através de técnicas de reprodução antigas em um longo período de tempo.

A técnica usa essencialmente máquinas moleculares criadas em um laboratório para cortar e vincular o ADN de uma planta, remover genes indesejados ou criar novas combinações. Por exemplo, a empresa de biotecnologia Calyxt, com sede em Minnesota, removeu o gene de uma batata responsável pela degradação dos açúcares, dando assim à batata uma vida útil maior. Alguns cientistas e grupos de defesa do consumidor expressaram preocupação de que essa manipulação ainda possa criar efeitos não desejados e deve ser testada e regulamentada da mesma forma como qualquer outro OGM.

Alguns reguladores concordam, outros não. Como eles definem OGM faz toda a diferença.

Regulamentação que inclui as novas técnicas

Em Marin County, Califórnia, uma lei chamada Medida B foi aprovada em 2004 proibindo o cultivo de OGM.

“No momento em que a lei foi elaborada e votada pelos residentes, ela abrangeu todas as modificações”, disse Stacy Carlsen, comissária agrícola do Marin County, por e-mail ao Epoch Times. “Esta técnica de OGM (Crispr-Cas9) deve ser proibida conforme definido na presente lei. A técnica é modificação genética”.

O National Organic Standards Board (NOSB) do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) votou em novembro para efetuar a proibição de utilização das novas técnicas em qualquer produção orgânica em território americano.

“É mais do que nunca imperativo que a comunidade orgânica esteja clara sobre os limites na produção baseada em engenharia genética”, observou o conselho na sua recomendação formal.

“Todo produtor orgânico tem consciência de que a engenharia genética é uma ameaça iminente para a integridade orgânica. O NOSB deve fazer, na medida do possível, todos os esforços para proteger essa integridade “.

O conselho esclareceu que define os OGM como qualquer organismo que tenha tido seu material genético alterado pela biotecnologia.

Mas a legislação federal padrão de OGM aprovada no ano passado tem uma definição mais específica, que não se aplica às plantas criadas usando as novas técnicas. Essa lei exigirá que os OGM tradicionais sejam rotulados com códigos QR para verificação por smartphones.

Regulamentação que omite as novas técnicas

O especialista em biotecnologia e política, Michael Rodemeyer, explicou que, devido ao fato da lei federal definir os OGM como algo criado com o uso de ADN de diferentes organismos, e que não pode ser encontrado na natureza, as novas técnicas tendem a escapar das regulamentações.

Sua opinião é que os regulamentos não mudarão muito a tempo de abranger essas novas técnicas. “Eu acho que é provável que tenhamos o status quo, e toda a incerteza quanto ao status quo, por algum tempo”.

Os OGMs até agora foram tratados por várias agências usando uma complexa estrutura regulatória que existia muito antes dos OGMs.

Por exemplo, o USDA regula a modificação genética que usa patógenos das plantas para alterar o ADN porque a administração já tinha autoridade para regular patógenos.

Da mesma forma, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) regula a segurança de pesticidas e, portanto, tem autoridade sobre plantas geneticamente modificadas resistentes a insetos.

A Food and Drug Administration (FDA) tem um processo de consulta voluntária no local para alimentos transgênicos. As empresas que desenvolvem OGM podem se aproximar da FDA com avaliações internas que eles completaram em seus próprios produtos alimentares.

Todas essas abordagens à regulamentação até agora não se aplicaram às novas tecnologias.

Como essas novas tecnologias não usam patógenos de plantas ou outras substâncias regulamentadas pelo USDA, a administração já disse às empresas de biotecnologia que não tem autoridade sobre os produtos resultantes.

A FDA examina o produto e não o processo – por isso, se os alimentos são produzidos com a reprodução tradicional, ou técnicas de modificação genética tradicionais ou novas, isso não faz diferença enquanto o produto vegetal final for o mesmo.

A empresa Calyxt desenvolveu uma soja usando uma técnica chamada Talen, que remove um gene para que o óleo de soja tenha menos gorduras trans. A Calyxt participou do processo voluntário da FDA, de acordo com o diretor de ciência da empresa e um dos inventores de Talen, Dan Voytas.

A FDA está analisando a composição dos ácidos graxos e da proteína do óleo de soja da Calyxt e comparando-a com outros óleos comerciais. A administração diz que eles parecem semelhantes ao que já está no mercado, disse Voytas.

A soja de Calyxt é cultivada em cerca de 1 mil hectares no centro-oeste dos Estados Unidos, disse Voytas, e a empresa antecipa que em breve começará a vender suas sementes aos fazendeiros. Outras culturas alimentares feitas com essas novas técnicas já estão no mercado.

Por exemplo, o novo SU Canola da Cibus é resistente a herbicidas. Ele está agora disponível nos Estados Unidos, onde a canola é amplamente utilizada para produzir óleo de cozinha. A SU Canola atualmente representa cerca de 5% do mercado americano com 70 mil hectares plantados e está se preparando para entrar no mercado canadense em 2017.

Enquanto a FDA não regulamenta as culturas alimentares produzidas usando as novas técnicas, a instituição afirma que irá regular qualquer animal modificado.

A administração tratará qualquer alteração intencional do genoma de um animal como uma droga, “porque se destina a alterar a estrutura ou função do animal e, portanto, sujeita a regulamentação de acordo com nossas provisões para novas drogas animais”, afirma a FDA em seu Blog oficial.

O Greenpeace afirma que as novas técnicas devem ser consideradas modificações genéticas, sejam elas usadas em plantas ou animais. Franziska Achterberg, diretora de política alimentar da União Européia (UE) do Greenpeace, disse via email que a Comissão Européia não tomou uma posição definitiva sobre se as novas técnicas serão abrangidas pela legislação do OGM da UE.

A comissão deveria ter publicado uma avaliação legal das novas técnicas no ano passado, mas não quis e não pretende mais, disse Achterberg. “Examinamos os documentos da comissão divulgados sob as leis da Liberdade de Informação e descobrimos que isso tem a ver com lobby americano, entre outras coisas”.

Rotulagem

O Non-GMO Project (Projeto Não-OGM) – uma organização sem fins lucrativos que é o principal fornecedor de verificação e rotulagem para alimentos não-OGM na América do Norte – considera os alimentos produzidos usando as novas técnicas como OGM. Ele irá colocar seu rótulo em todos esses alimentos, disse o diretor executivo Megan Westgate, em um e-mail.

“Há uma tentativa crescente por parte das empresas de biotecnologia de distanciar-se da rejeição dos consumidores de OGM alegando que novos tipos de engenharia genética … na verdade não são engenharia genética”, disse ela.

O Projeto Não-OGM optou por incluir o uso dessas novas técnicas em sua definição de OGM. Seu rótulo é atualmente a melhor garantia de que um consumidor possa obter um produto que não seja OGM.

As tecnologias mais antigas de modificação genética nunca foram usadas diretamente em seres humanos, mas de acordo com um estudo de 2015, cientistas da China começaram a usar Crispr-Cas9 para remover genes que causam doenças de embriões humanos. O Congresso proibiu esta prática no ano passado, apesar da pressão de alguns cientistas que pensam que os Estados Unidos ficariam atrás de outros países no desenvolvimento da biotecnologia.

Um painel federal de biossegurança e ética dos EUA, no entanto, aprovou a injeção em humanos de células que foram modificadas com Crispr-Cas9 para atacar o cancro.

fonte: Epoch Times

terça-feira, 6 de junho de 2017

Bilderberg: o clube mais secreto do mundo está de olho em Donald Trump


Até domingo, os destinos da Humanidade estão sob discussão de políticos, banqueiros, presidentes ou administradores de grandes empresas. Quais as figuras portuguesas que fizeram parte destes encontros?

Os “senhores do mundo” estão reunidos desde quinta-feira naquele que é um dos encontros de líderes mais importantes a nível global: as conferências de Bilderberg. Ao longo de quatro dias, os destinos da Humanidade estão sob discussão de políticos, banqueiros, presidentes ou administradores de grandes empresas, nos quais se incluem Christine Lagarde, Luis de Guindos, Michael O’Leary, Ana Botín, entre outros.

O tema a que os participantes vão dar mais atenção é ao governo de Donald Trump, que ainda esta semana fez correr tinta por ter abandonado oficialmente o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. De acordo com o comunicado da organização, os principais pontos a debate são a nova administração dos Estados Unidos da América e as relações transatlânticas.

As personalidades da política e economia mundiais vão fazer a radiografia ao percurso do presidente americano e a avaliar a implicação das suas medidas na Europa e América anglo-saxónica, mas de Donald Trump nem palavras nem tweets até ao momento. “É possível abrandar a globalização?” e “Por que está o populismo a crescer?” são outras das questões a que a centena de convidados procura responder, bem como a proliferação nuclear, o papel da Rússia a nível internacional e o futuro da União Europeia e da China.

Curiosamente, o clube reuniu-se um dia depois da cimeira Europa-China, em Bruxelas, onde o comércio e a concorrência desleal entre as duas potências foram temas-chave. Nessa ótica, calcula-se que os líderes mundiais tragam à tona o acordo de investimento que o projeto europeu tenta negociar com Pequim desde 2013. Porém, não passam de probabilidades, porque o desfecho destas negociações é um autêntico covfefe (leia-se: dilema por decifrar).

Bild… quê?

O secretismo envolto no clube muito se deve ao facto de os meios de comunicação social terem pouco (ou nenhum) acesso a informação sobre as conversas que os convidados têm. A última conferência de imprensa de Bilderberg foi em meados dos anos 70, mas a organização desvaloriza a situação, dizendo que durante várias décadas reuniram os jornalistas no final dos eventos mas acabaram por pôr fim às conferências de imprensa “por falta de interesse”, conforme se pode ler numa nota publicada online.

O The Guardian não se deixa embalar pelo argumento e, num artigo publicado recentemente, o diário britânico critica severamente esta opção tomada pelos responsáveis dos Encontros de Bilderberg e considera que certos tópicos são irónicos, como a discussão sobre as fake news [“The war on information”, um dos assuntos em cima da mesa].

“A conferência mais secreta do mundo, que opta por perder milhares de dólares a tentar afastar os jornalistas dos debates, (…) quer garantir a transmissão da verdade?”, escreve a correspondente no local. Quanto à questão dos populismos, o jornal vê como uma “piada” e diz que “deviam olhar ao espelho” devido ao lobby que os oradores fazem.

No evento deste fim de semana vão estar representantes do The Economist, do El País, da Bloomberg ou do The Wall Street Journal, sendo que em edições anteriores estiveram repórteres ou editores da CBS, do Le Monde, do Le Figaro, etc. Há cinco anos, a jornalista portuguesa Clara Ferreira Alves, do semanário Expresso, foi convidada pelo presidente do grupo Impresa para representar o país.

A sombra em redor deste clube tem motivado o interesse de vários académicos e enriquecido o património literário com obras sobre os encontros, como «Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg», de Daniel Estulin, «O Clube Secreto dos Poderosos», da autoria de Cristina Martín Jiménez e, uma das mais recentes, «O Governo de Bilderberg», redigida por Frederico Duarte Carvalho.

Neste último trabalho de investigação, o autor refere que “não há, no mercado livreiro nacional e internacional, uma história isenta sobre o que é esta organização que, desde os anos 80, conta com dois ex-primeiros-ministros portugueses na lista dos membros permanentes”.

Numa rara ocasião em que comentou o tema, em 2013, o antigo membro permanente Francisco Pinto Balsemão – entretanto substituído por Manuel Durão Barroso – levantou ligeiramente o véu e confessou que “cada membro do comité diretor tem os critérios” para a escolha dos convidados à reunião anual. “Procuramos convidar pessoas que ou já têm influência ou que nós entendemos que poderão vir a ter relevância política, social, cultural”, explicou.

Os bilderbergers portugueses de 2017 são Manuel Durão Barroso e o seu antigo ministro-adjunto José Luís Arnaut. O ex-presidente da Comissão Europeia convidou o managing partner da CMS Rui Pena & Arnaut e o presidente da EDP para o acompanharem a Virginia, no entanto, o nome de António Mexia já não consta da lista de participantes que foi divulgada no site oficial do clube.

Recorde-se que esta sexta-feira, no âmbito de um inquérito dirigido pelo Ministério Público, António Mexia e João Manso Neto, CEO da EDP Renováveis, foram constituídos arguidos por suspeitas de corrupção. Além destes empresários, o Jornal Económico noticiou que outros dois responsáveis da REN, João Faria da Conceição e Pedro Furtado, estariam a ser investigados.

A reunião de Bilderberg deste ano, que decorre até este domingo, dia 4, realiza-se no Hotel Westfields Marriott, na região de Chantilly, localizada no estado norte-americano de Virgínia. É a quarta vez que esta unidade hoteleira recebe os todo-poderosos, depois de em 2002, 2008 e 2012 também ter sido o local selecionado pela organização.

As conferências de Bilderberg, cujo nome advém do hotel onde ocorreu a primeira, em 1954, contam na generalidade com dois terços de participantes europeus e os restantes são oriundos da América do Norte. Ao todo, 131 personalidades de 21 países confirmaram a sua presença em Chantilly. Veja que outras figuras portuguesas já fizeram parte de encontros anteriores:

António José Seguro

Paulo Portas

Luís Amado

Paulo Rangel

Francisco Pinto Balsemão

Manuel Pinho

José Sócrates

José Pedro Aguiar-Branco

Santana Lopes

José Manuel Durão Barroso

Nuno Morais Sarmento

António Costa

Rui Rio

Manuela Ferreira Leite

Augusto Santos Silva

Marcelo Rebelo de Sousa

António Guterres

Ferro Rodrigues

Jorge Sampaio

Luís Mira Amaral

Vítor Constâncio

Fernando Teixeira dos Santos

José Medeiros Ferreira

Joaquim Ferreira do Amaral

António Morais Barreto

João Cravinho

Artur Santos Silva

Francisco Murteira Nabo

Clara Ferreira Alves

António Nogueira Leite

Manuel Ferreira de Oliveira

Ricardo Salgado

Inês de Medeiros

Paulo Macedo

Carlos Gomes da Silva

Maria Luís Albuquerque


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Portugueses contaminados com herbicida potencialmente cancerígeno


Há vários portugueses contaminados com glifosato, um herbicida que é potencialmente cancerígeno. A sua presença foi detetada com valores elevados no norte e centro do país.

É o herbicida mais usado em Portugal, campeão de vendas na Europa e um caso de sucesso na América. O glifosato serve para matar ervas, mas esconderá outros perigos?

O glifosato é o herbicida mais vendido em Portugal e está a ser inalado e ingerido por muitos portugueses.

Maria de Lurdes e o marido são agricultores desde que têm memória. Combatem as pragas e as ervas daninhas com químicos - como aprenderam - sem levantarem demasiadas questões. Chamam-lhes tratamentos.

É na agricultura que o glifosato é mais usado. O herbicida foi inventado nos anos 70, pela multinacional americana Monsanto. Hoje em dia, só em Portugal, há mais de 20 marcas que comercializam glifosato. É um herbicida total, não seletivo - o que quer dizer que mata qualquer tipo de planta.As marcas de pesticidas estabeleceram intervalos de segurança. São períodos de tempo de espera entre a aplicação e o consumo.

Já na horta de Margarida Silva não entra glifosato. A investigadora acredita que o herbicida esconde sérios riscos para os humanos.

O alerta sobre os perigos do herbicida soou a mais de mil de quilómetros de Portugal, em França. A Organização Mundial de Saúde, através da Agência Internacional de Investigação para o Cancro, estudou o glifosato durante um ano.

Dezassete investigadores tomaram uma decisão unânime: classificar o glifosato como potencialmente cancerígeno.

Consumir glifosato

O glifosato pode entrar no corpo humano através da ingestão de água e alimentos ou da inalação.

Em Portugal é no Instituto de nacional de investigação agrária e veterinária que são feitas as análises aos alimentos. Todos os anos são feitas análises a centenas ou milhares de amostras, consoante os planos.

O glifosato não está sozinho. Cada embalagem esconde uma mistura de vários químicos para aumentar a eficiência. Muitos escapam ao controle porque são considerados segredo da própria marca e nem sequer constam no rótulo.Para uma amostra de alimentos pesquisam-se muitas substâncias diferentes, faz-se um rastreio enorme em termos de moléculas para perceber se houve alguma contaminação. Nenhum desses parâmetros é o glifosato. O laboratório tem a competência técnica, mas ainda não têm a luz verde oficial. Falta uma acreditação que deve chegar ainda este ano.

As análises em causa são para já feitas nos Estados Unidos, para onde são enviadas as amostras. O laboratório escolhido é o de uma universidade na Califórnia. A RTP tem conhecimento da morada e dos métodos analíticos, mas a universidade exigiu anonimato. Está a preparar um estudo científico sobre o glifosato, uma investigação blindada às pressões externas que só deverá ser divulgada no verão.

Mas a ciência fala a duas vozes. De um lado as Nações Unidas, do outro a Europa. Milhares de estudos foram analisados pelas duas entidades. Já este ano um grupo de cientistas acusou a da EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar) de ser parcial e de se ter baseado num relatório da própria industria, uma parte interessada.

Os maiores problemas com o glifosato estão nos países americanos, onde são cultivados alimentos geneticamente modificados – 80% dos chamados OGM são resistentes ao glifosato, o que quer dizer que uma plantação transgénica pode ser pulverizada com herbicidas sem que a cultura morra, só as ervas. Um jackpot económico que se traduz por altas concentrações de herbicidas nos cereais.

Estes transgénicos são por enquanto proibídos na Europa. Mas há um transgénico que pode ser semeado: a variedade de milho MON 181. E Portugal é um dos quatro países que cultiva OGM na Europa.

Nos supermercados, os produtos OGM estão sobretudo nas prateleiras de óleos alimentares, numa farinha de milho e numa maionese. Mas várias toneladas de milho e soja OGM entram todos os dias em Portugal. Vêm de barco e vão para as fábricas de rações. Mais de 90% da alimentação animal é feita de transgénicos resistentes ao glifosato.

Mas a qualidade paga-se. Os alimentos biológicos são, em geral, mais caros. E… serão suficientes para alimentar o planeta?

fonte: RTP Noticias

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Zika Vírus: O mosquito mutante do eugenista Bill Gates é declarado ameaça mundial


Em 2011, mosquitos Aedes Aegypti, geneticamente modificados foram soltos em algumas cidades brasileiras. Era o começo do Projeto Aedes Transgénico aqui no Brasil. A promessa era de que os mosquitos transgénicos machos copulariam com as fêmeas selvagens e as crias morreriam ainda no estágio larval, sem chegar a idade adulta. Seria maravilhoso se fosse tudo assim, mas não foi bem isso que aconteceu.

É muito provável que ovos do Aedes Aegypti, geneticamente modificados, tenham sido expostos à tetraciclina, antibiótico que mantém as larvas até a idade adulta, ganhado o mundo já como um novo mosquito, de carga genética diferente do Aedes Aegypt original. O resultado disso você já sabe: em vez de neutralizar a potencialidade nociva do mosquito transmissor da dengue, essa mutação genética no inseto, trouxe novas doenças para os brasileiros: A Zika e a febre chikungunya. O Zika vírus, entretanto, com consequências devastadoras para as grávidas: a microcefalia em bebés de mães diagnosticadas com a doença, durante a gestação. Os casos não param de aumentar.

Milhões de mosquitos geneticamente modificados foram liberados na cidade brasileira de Piracicaba, no âmbito de uma campanha para reduzir a propagação da dengue no país.

Se trata de machos que carregam o gene mutante passando para as larvas e as matando antes que elas atinjam a idade reprodutiva, de acordo com o jornal PLoS Neglected Tropical Diseases “.

A tecnologia para combater este tipo de doença foi desenvolvida pela empresa de biotecnologia britânica Oxitec (financiada pelo bilionário eugenista globalista Bill Gates), que tem uma licença para executar tais experimentos no Brasil.

Além disso, a empresa está aguardando a autorização da Agência de Alimentos e Medicamentos americana para realizar testes semelhantes na Florida.

Os cientistas descobriram que desde abril de 2015, quando o teste começou em Piracicaba, a área de concentração máxima das transportadoras de dengue Aedes aegypti, 50% da nova geração desses mosquitos foram fecundos por machos transgénicos.


MosquitoTransgênico – Zika e Microcefalia – Qual a Relação?


29/07/2014 –

Brasil inaugura primeira fábrica de mosquitos da dengue transgénicos

Empresa Oxitec produz inseto capaz de reduzir transmissão da doença.

Unidade em Campinas gera até 2 milhões de mosquitos por semana.


Mosquito Aedes aegypti macho fabricado pela Oxitec, unidade criada em Campinas, 
interior de São Paulo (Foto: Eduardo Carvalho/G1)

A empresa britânica Oxitec inaugurou, nesta terça-feira (29), a primeira fábrica de mosquitos Aedes aegypti transgénicos do Brasil, uma tecnologia que, se aprovada, pode ajudar no combate da dengue no país.

A unidade, instalada em Campinas, tem capacidade de produzir 500 mil insetos por semana. No ápice de produção, esse número pode saltar para 2 milhões de machos a cada sete dias.

A tecnologia foi desenvolvida em 2002, no Reino Unido. No laboratório, ovos dos Aedes aegypti receberam uma micro injeção de ADN com dois genes, um para produzir uma proteína que impede seus descendentes de chegarem à fase adulta na natureza, chamado de tTA, e outro para identificá-los sob uma luz específica.

Os machos, quando liberados na natureza, procriam com as fêmeas –responsáveis pela incubação e transmissão do vírus da dengue. Elas vão gerar descendentes que morrem antes de chegarem à vida adulta, reduzindo a população total.

fonte: APC News

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